
Quando chegou ao Brasil, ele se chamava viola. O tempo passou, seu corpo aumentou, ganhou as seis cordas. O violão, como ficou conhecido, já foi visto como instrumento de malandro, mas, durante a década de 1920, passou a ser reivindicado como um elemento inerente à identidade nacional, sentimento que se reforçou no fim dos anos 1950, com a bossa nova. “É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede”, já dizia Lima Barreto pela voz do personagem Policarpo Quaresma, em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, publicado pela primeira vez em 1911.
O passar das décadas confirmou o que o escritor carioca previra: o instrumento se afirmou como bem indissociável da cultura brasileira. Aqui, o som produzido pelas seis cordas embalou os ritmos mais variados. “Ele esteve na base do acompanhamento dos gêneros de canção lírica e satírica, modinha e lundu; posteriormente na seresta, no samba-canção, na bossa-nova”, diz
Marcia Taborda, professora da Escola de Música da UFRJ. Segundo ela, o acústico balançou as discussões nacionalistas travadas na segunda metade do XX: “essa época foi marcada pela busca do que é nosso. Na afirmação de uma identidade nacional, o violão foi eleito o timbre mais característico, ‘o alto-falante da alma nacional’”.
Apesar de desempenhar um papel de protagonista na música popular brasileira, o instrumento tem uma história pouco explorada pelos pesquisadores nacionais. Movida pela necessidade de preencher esta lacuna de informações sobre o passado do violão, Taborda se debruçou sobre o tema e produziu o livro “Violão e identidade nacional”, contemplado pelo Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música (2010).
“Meu primeiro objetivo foi documentar a trajetória do instrumento buscando mapear os seus primeiros passos na cidade do Rio de Janeiro”, diz a pesquisadora à Revista de História. O foco do trabalho é a chegada do violão de seis cordas, no século XIX, até a sua popularização nas primeiras décadas do XX. Para abarcar o período, a professora precisou investigar os antepassados do violão, de modo que estejam presentes na obra dados sobre a história da viola, desde sua vinda para o Brasil, no século XVI.
Levou anos para que o violão chegasse ao status que tem hoje. Nessa trajetória, cruzaram seu caminho muitos músicos dispostos a dar-lhe o prestígio merecido, como Catulo da Paixão Cearense, João Pernambuco, Quincas Laranjeira, Villa-Lobos. Foi pelas mãos destes e de outros mestres que o olhar sobre o instrumento foi mudando, assim como o jeito de tocá-lo, de modo a criar, por exemplo, uma tradição brasileira de violonistas enraizada principalmente no Rio de Janeiro.

“Essa tradição foi sendo trazida aos dias de hoje como um passar de bastão”, diz Taborda. E exemplifica: “Quincas Laranjeira considerado um grande mestre do instrumento nos anos de 1920/1930 foi professor de Antonio Rebello, músico português responsável pela formação de violonistas como Jodacil Damaceno e Turíbio Santos, todos destacados virtuoses do instrumento atuantes sobretudo na chamada música de concerto. No entanto, destaca-se ainda um outro ramo estabelecido também a partir de Quincas: seu aluno Levino Conceição foi mestre maior de Dilermando Reis, violonista e compositor popular que exerceu grande influência no meio violonístico carioca.”
Como toda amante da música, Taborda tem seus violonistas favoritos: Andrés Segovia e Raphael Rabello. Mas, no mês em que o fundador da bossa nova João Gilberto completa 80 anos, a pesquisadora não deixa de lembrar a importância do músico para a MPB: “João Gilberto reuniu, como nenhum outro músico, um extremo apuro e preciosismo na relação canto e acompanhamento; sua realização neste sentido é criativa, perfeita e inigualável”. Mas, apesar dos elogios, ela observa que “se pensarmos na trajetória do acompanhamento do samba como feito pelos regionais que atuaram até os anos de 1950, a síntese de João Gilberto representou para o executante não especializado uma padronização empobrecedora para a levada do samba, gênero cujo acompanhamento ao violão se caracteriza pela infinita riqueza e possibilidade de articulação rítmica”
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário